29/06/2015 - 18:10
Um tributo a meu pai

Meu pai foi o músico mais virtuoso que eu já conheci. Qualquer instrumento que se desse na mão dele, ele sabia tocar. Era impressionante. A música fazia mesmo parte da nossa casa: sempre havia instrumentos por todo o lugar. Me lembro de seus violões, guitarra, cavaquinho, teclado, gaita. Tinha até uma harpa (de inúmeras cordas) e uma marimba, que era maior que uma mesa de jantar. Tinha discos de vinil, fitas, cds. E ele andava sempre assobiando alguma coisa. Meu pai adorava a música.

Era comum (e ainda hoje é) encontrar pessoas de todas as idades que têm alguma história sobre música e meu pai para contar. Companheiros e amigos dos antigos bailes, ou da banda Explosivos - uma revolução de que ele fez parte quando jovem. Me lembro de um dia em que perguntei a ele quem eram e o que faziam aquelas pessoas em uma foto antiga que encontrei. Eis que ele me contou que eram seus companheiros “Explosivos”, em frente à Kombi, o meio de transporte com o qual foram até para o Uruguai se apresentar. As calças pantalonas e camisas características da época eram marcas registradas daquele jovem galã: meu pai.

Os domingos e as noites de festa sempre tinham canções para embalar. O pai plantou em nós, seus filhos, o gosto pela música. Lembro que por volta dos meus 13 anos decidi aprender a tocar violão. Quando contei a ele a novidade, meu pai logo puxou uma folha em branco, onde desenhou com uma régua as casas do violão. Nos pontinhos, riscou as posições das notas musicais básicas. Ele sabia que se fizesse as pestanas e notas muito complicadas eu poderia desistir. Então ele disse: pegue uma música que você queira tocar e vá trocando as posições. E assim eu fui, por dias, semanas e meses de muita barulheira. Não poderia ter um professor melhor.

Logo depois disso, no Natal, ele fez questão de me presentar com meu próprio violão. Depois, mesmo praticando poucas vezes, sempre levava o instrumento para ele verificar a afinação. Quando eu percebia que algo estava desafinado, logo ia para a casa do pai, levando o violão nas costas. Me lembro muito bem como ele o segurava e puxava algumas notas. Em questão de segundos, ajustava os ponteiros e o violão estava afinado, prontinho. Ele então habilidosa e humildemente dedilhava alguma música. Geralmente era uma canção chamada India, que dizia: “India seus cabelos nos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar”.

Mas eu gostava mesmo era quando, mais empolgado, ele puxava a “Saudosa Maloca”, clássico dos Demônios da Garoa. Essa sim, nós dois mais ou menos sabíamos a letra: “Só se conformemo quando o Joca falou: Deus dá o frio conforme o cobertor. E hoje nós pega palha, nas gramas dos jardins, e pra esquecer, nós cantemos assim... Saudosa maloca, maloca querida...”.

Não sei se onde meu pai está hoje tem festa. Mas tenho certeza que se não tiver, ele vai fazer. E lá suas canções estão alegrando a todos. E a nós aqui também, para sempre.


Autor(a): Camila Stuelp



COMPARTILHE:

Veja outros posts
Página Inicial Mais artigos Voltar

(49) 36770907

Rua São Bonifácio, 78 - Centro
Itapiranga - SC
CEP 89.896-000

Mapa de Localização
Acesse nossos canais:

Portal Força d'Oeste © Todos os direitos reservados
Desenvolvido por DBlinks Agência Digital